Eu tenho 47 anos e já vivi vários relacionamentos, quase todos com uma boa duração. O que durou menos ficou em torno de seis meses. Hoje estou casada há 19 anos e aprendi a ser direta com o que sinto. Quando não estou com vontade de fazer sexo, não invento dor de cabeça nem desculpa esfarrapada. Falo logo que não estou a fim. Só que, ao longo do casamento, comecei a desconfiar do meu marido por algumas atitudes, e acabei descobrindo algumas traições dele.
Eu sou vingativa, não vou mentir. Fui vivendo meus casos também, sem ele saber. Mas não faço sexo por fazer. Para mim, tem que existir conexão, cumplicidade e prazer para os dois. Mesmo quando é uma aventura, mesmo quando é uma vingança, eu preciso sentir alguma coisa além da carne. Preciso de um clima, de conversa, de cuidado e de vontade verdadeira.
Um desses casos foi com o ex de uma amiga. Eu os conheci quando ainda eram casados. Ela reclamava muito dele, dizia que ele não conseguia satisfazê-la por ter um pênis pequeno, e por isso traía o marido. Não demorou muito para ele descobrir. Pegou minha amiga saindo do motel com outro cara e ficou completamente revoltado. Jogou as coisas dela na rua, e ela passou três dias na minha casa antes de ir embora com o homem do motel para outra cidade.
A vida tem dessas ironias. Dois meses depois, o cara com quem ela foi embora também a traiu. Depois de um ano, ela se casou de novo, teve um filho e cortou contato comigo. A amiga foi embora da minha vida, mas o ex dela ficou. Ele, sim, acabou virando meu amigo. Vou chamá-lo de Babado.
De tempos em tempos, Babado me procurava para conversar. Desabafava comigo, chorava no meu ombro e usava aquelas conversas como uma espécie de terapia. Foi nessas sessões improvisadas, quase sempre em algum barzinho, que acabou rolando nosso primeiro beijo. Ele sabia que eu era casada e me pediu desculpas. Eu disse que estava tudo bem, porque eu também queria aquele beijo. Éramos adultos e sabíamos o que estávamos fazendo.
Claro que, nesses encontros, muitas vezes já não estávamos totalmente puros. Tinha conversa, bebida, carência e uma intimidade que crescia sem pedir licença. Foi assim que passamos do bar para o motel. Minha ex-amiga estava certa em uma coisa: o sexo com ele não era exatamente bom do jeito que eu gostava. Faltava algo mais encorpado, faltava aquela pegada que me fazia perder o juízo. Mas eu gostava da companhia, da conversa, do carinho. Eu buscava nele algo que queria encontrar no meu marido e não encontrava.
Isso é importante: a conexão entre nós era muito boa. Ele era uma pessoa maravilhosa, um bom amigo, bonito, cheiroso, agradável de conversar e nada babaca. Estar com ele era um prazer diferente. Se rolasse sexo, rolava. E, mesmo sem ter todos os dotes que eu gosto na hora H, ele sabia usar a língua, os dedos e tinha paciência nas preliminares. Só que eu gosto de gozar junto, de sentir tesão, pegada, pressão. Com ele, o prazer era mais forte antes do sexo do que durante.
Nossa relação secreta continuou por um tempo, mas, aos olhos das outras pessoas, a amizade seguia normal. Meu marido, que é estrangeiro, viajava algumas vezes para fora do país e me deixava sozinha. Em uma virada de ano, passei cinco dias com Babado e outro amigo, sem deixar rolar nada para não dar pinta, mas deixei meu celular desligado. Quando meu marido voltou, perguntou por que eu não atendia. Menti dizendo que o aparelho tinha molhado, queimado e que eu tinha comprado outro igual.
Eu queria viver minhas conexões com quem eu quisesse. Não era só sexo. Era aquela sensação de ter alguém para conversar, rir, beber alguma coisa e me olhar de um jeito que eu sentia falta. Só que, com o tempo, os riscos foram aumentando.
Eu fazia um curso em outra cidade e combinamos de nos encontrar depois da aula em uma choperia. A caminho do encontro, passei em frente a um sex shop com algumas amigas do curso. Uma delas era esposa de pastor e dizia que tudo era pecado, então não queria entrar de jeito nenhum. Depois de muita conversa, convenci a mulher a entrar. No fim, foi ela quem mais comprou produtos para usar com o abençoado dela. Eu comprei bolinhas, dados, calcinha comestível e óleo.
Depois me despedi delas e fui encontrar meu Babado. Eu estava de calça jeans e camiseta de malha. No dia a dia, não sou de usar fio-dental, então estava com uma calcinha normal, decente mesmo. Tomamos um chope e depois fomos para o motel. Como eu sabia que teria dificuldade para ter prazer sexual com ele, resolvi usar a bolinha para tentar melhorar a situação.
Não me recordo exatamente das posições daquela noite. Só sei que o óleo perfumado da bolinha durava umas 24 horas. Que desgraça.
Já era quase 23h quando ele me levou para casa. O problema é que eu costumava chegar por volta das 20h. Tive que inventar para meu marido que tinha ido tomar chope com as amigas do curso. Ele não acreditou muito na história, mas, por algum motivo, estava com tesão e queria transar comigo. Fiquei sem graça, porque, quando ele sentiu aquele cheiro de perfume, precisei dizer que tinha usado a bolinha para ele.
Aí ele veio com tudo.
Fizemos aquele sexo firme, intenso, do jeito que eu gosto. Nem preciso dizer que foi uma noite perfeita: o carinho do meu Babado antes e o desejo intenso do meu marido depois. Foi estranho, errado e delicioso ao mesmo tempo. Uma daquelas situações em que a gente sabe que está brincando com fogo, mas sente prazer justamente no calor da chama.
As aventuras continuaram por pouco tempo. Precisei terminar nossa amizade e nosso caso por causa de um fato bem desagradável. Um dia, ele bebeu demais e me ligou de madrugada dizendo que estava com saudades e queria que eu fosse encontrá-lo. O pior foi que meu marido acordou e quis saber quem estava falando comigo naquele horário.
Aquilo foi longe demais.
Afastei-me dele. Não porque a conexão tivesse desaparecido, mas porque o risco ficou grande demais para continuar. Ele seguiu a vida. Hoje, Babado é casado com uma mulher 15 anos mais velha que ele. Se está feliz, eu não sei. Só sei que engordou uns 20 kg. Talvez esteja bem. Talvez só tenha encontrado outra forma de preencher os vazios dele.
Quanto a mim, aprendi que existem conexões perigosas. Algumas não são feitas só de sexo, mas de conversa, carência, carinho e desejo acumulado. E talvez por isso sejam ainda mais difíceis de abandonar.

