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Memórias de Estrada

Posted on 3 de fevereiro de 20236 de junho de 2026 By Desejos Intensos Nenhum comentário em Memórias de Estrada

Amanda observava a paisagem passar pela janela do carro enquanto viajava com o tio Alfredo. Era fim de ano, pouco depois de ter completado 19 anos. Ela já havia terminado o ensino médio e estava naquele período estranho entre o fim de uma fase e o começo de outra. Ainda morava com os avós, tinha perdido a mãe cedo e nunca conhecera o pai. Alfredo, apesar de sério e mandão, era uma das poucas presenças constantes na família.

A viagem não parecia prometer muita coisa. O tio era mascate, desses vendedores que atravessavam cidades pequenas oferecendo produtos, fazendo cobranças e visitando clientes antigos. Passaram por alguns municípios do interior de São Paulo e do Paraná, parando em postos de estrada, lanchonetes simples e casas de conhecidos. Amanda odiava os banheiros de estrada e os olhares insistentes de alguns homens, mas tentava se distrair vendo as placas e as luzes da rodovia.

Depois de alguns dias, chegaram a Mandaguaçu, onde Alfredo tinha amigos antigos. Um deles se chamava Marcos e receberia parte da família para as festas de fim de ano. A casa era movimentada, com churrasco, conversas altas, música e bebida. Amanda se sentia um pouco deslocada entre adultos mais velhos, até conhecer Sofia.

Sofia era magra, tinha cabelo castanho-escuro, sorriso fácil e uma energia que ocupava o ambiente. Devia ter uns 20 anos. Era extrovertida, falava rápido e parecia conhecer cada rua da cidade. Aproximou-se de Amanda sem cerimônia, puxando assunto como se já fossem amigas havia anos. Em pouco tempo, as duas estavam rindo juntas no canto da varanda.

Durante a tarde, Sofia a chamou para conhecer uma praça próxima. Amanda hesitou, lembrando do jeito controlador do tio, mas acabou indo. Caminharam pelas ruas tranquilas, conversaram sobre família, estudos, planos e coisas bobas. Na praça, sentaram-se em um banco e ficaram olhando o movimento, como se aquele lugar pequeno fosse delas por alguns minutos.

Quando voltaram para o jantar, Alfredo estava irritado. Chamou Amanda para longe dos outros e deu uma bronca, dizendo que não gostava que ela saísse sem avisar. Amanda ficou constrangida, mas não era mais uma menina. Respirou fundo, ouviu calada e respondeu apenas que estava tudo bem. A presença de Sofia, logo adiante, sorrindo de um jeito cúmplice, ajudou a aliviar a tensão.

Mais tarde, depois do banho e do jantar, Sofia chamou Amanda para o quarto. Disse que tinha um videogame antigo e que seria melhor ficar ali do que ouvir os homens contando as mesmas histórias na área. Jogaram por um tempo, rindo baixo das próprias trapalhadas, até que a casa começou a silenciar.

As duas ficaram no quarto com a luz apagada, conversando pelo celular para não chamar atenção. Uma escrevia, entregava o aparelho, a outra lia, apagava e respondia. A claridade da tela ia e voltava no escuro como um vaga-lume. Falaram de viagens, de relacionamentos, de beijos ruins e de desejos que nunca tinham contado a ninguém.

Foi Sofia quem perguntou primeiro: “Você já teve vontade de ficar com uma mulher?” Amanda ficou imóvel por alguns segundos. Não era uma pergunta completamente nova dentro dela, mas nunca tinha sido feita daquela forma, por alguém tão perto, tão bonita e tão interessada na resposta.

Amanda digitou com cuidado: “Já tive curiosidade. E você?” Sofia leu, sorriu no escuro e respondeu: “Também. Mas tenho vergonha.” Amanda sentiu o coração acelerar. Depois de um instante, escreveu: “Se você quiser, eu chego primeiro.” Sofia respondeu quase imediatamente: “Quero. Mas só se você quiser também.”

A frase tirou o medo de Amanda. Ela se virou devagar, aproximou o rosto do de Sofia e a beijou. O beijo começou tímido, quase uma pergunta, mas logo ganhou resposta. Sofia segurou sua nuca, puxando-a com delicadeza. Amanda sentiu um calor novo, diferente de tudo que lembrava ter sentido antes.

Depois do beijo, ficaram em silêncio por um tempo. Não era arrependimento. Era susto. Amanda tinha sido criada pelos avós em um ambiente cheio de regras e culpas, e parte dela ainda tentava entender o que estava acontecendo. Sofia percebeu a tensão e apenas segurou sua mão por baixo do lençol. Aquilo bastou para acalmá-la.

No dia seguinte, os homens saíram cedo para pescar, e boa parte das mulheres ficou na área da casa conversando. Sofia chamou Amanda com um olhar e entrou primeiro. Amanda esperou alguns minutos antes de segui-la, tentando parecer natural.

Encontrou Sofia em um quarto mais afastado, sentada na beira da cama. A porta ficou apenas encostada. “A gente não precisa fazer nada que você não queira”, Sofia disse. Amanda gostou de ouvir aquilo. Aproximou-se e respondeu: “Eu quero. Só estou nervosa.”

As duas se beijaram novamente, agora sem o escuro da noite para esconder a vontade. Sofia tocou as costas de Amanda por baixo da blusa, e ela se arrepiou inteira. Amanda retribuiu, passando os dedos pelos braços e pela cintura dela, descobrindo aos poucos como era tocar outra mulher com desejo.

A brincadeira deixou de ser apenas beijo. Com calma, foram tirando algumas peças de roupa, sempre entre pausas e olhares de confirmação. Amanda se sentia insegura, mas não queria parar. Sofia também parecia nervosa, embora tentasse disfarçar com um sorriso provocante.

Quando Sofia a deitou na cama, Amanda sentiu o corpo inteiro responder. Os beijos desceram pelo pescoço, pelos seios e pela barriga, até que Sofia perguntou baixinho se podia continuar. Amanda assentiu e levou a mão aos cabelos dela, guiando-a com cuidado.

O toque íntimo veio devagar, misturado a beijos e respirações presas. Sofia não parecia experiente, mas era atenta. Amanda fechou os olhos e deixou que o prazer viesse aos poucos, descobrindo sensações que a assustavam e encantavam ao mesmo tempo. Teve vontade de rir, de gemer, de fugir e de pedir mais, tudo junto.

Depois, Sofia se aproximou de novo e a beijou. “Sua vez?”, perguntou, ainda tímida. Amanda respirou fundo. Queria tentar, mas tinha medo de não saber o que fazer. Sofia percebeu e a tranquilizou: “Vai com calma. Eu te mostro.” Aquelas palavras fizeram Amanda sorrir.

Amanda trocou de lugar com ela e começou com beijos lentos. Tocou o corpo de Sofia com cuidado, observando cada reação. Aos poucos, ganhou confiança. Sofia guiava sua mão, sussurrava quando queria mais devagar ou com mais firmeza, e Amanda seguia, aprendendo com o corpo dela.

O desejo cresceu entre as duas sem pressa. Amanda se surpreendeu com a própria entrega, com a vontade de continuar e com a intensidade da respiração de Sofia. Quando sentiu que a amiga estava perto do prazer, diminuiu o ritmo por insegurança, mas Sofia segurou sua mão e pediu: “Não para agora.” Amanda continuou, mais concentrada, até ver Sofia estremecer e se agarrar ao lençol.

A intensidade do momento assustou Amanda. De repente, tomou consciência da casa, dos passos possíveis no corredor, do tio, das pessoas do lado de fora e de tudo que aquela descoberta significava. Levantou-se depressa, pegou as roupas e foi ao banheiro. Lavou o rosto, respirou fundo e ficou alguns minutos olhando para si mesma no espelho.

Quando voltou para a área externa, tentou agir normalmente. Sofia apareceu pouco depois, com o cabelo preso e uma expressão tranquila demais para quem tinha acabado de viver a mesma coisa. As duas trocaram um olhar que dizia mais do que qualquer frase.

No fim da tarde, os homens chegaram da pescaria. Amanda soube que viajaria cedo no dia seguinte com Alfredo. A despedida de Sofia foi discreta. Um abraço um pouco mais demorado, um sorriso contido e a promessa vaga de manter contato. Na prática, a vida seguiu outro caminho. Amanda nunca mais a viu.

Com o tempo, perdeu o número, esqueceu detalhes da rua e já não sabia apontar com certeza a casa onde aquilo aconteceu. Mas nunca esqueceu Sofia, nem o calor daquela cidade pequena, nem a sensação de descobrir uma parte de si em plena estrada.

Anos depois, quando pensava naquela viagem, Amanda não lembrava apenas do desconforto dos postos, das broncas do tio ou das longas horas olhando a paisagem. Lembrava da luz do celular no escuro, do primeiro beijo, da mão de Sofia segurando a sua e da certeza silenciosa de que algumas memórias de estrada nunca ficam realmente para trás.

Ficção, Primeiros Contos Tags:descoberta, desejo, estrada, ficção, lésbico, maioridade, memória, mulheres, romântico, viagem

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