O sorriso de Thais e sua gargalhada quase histérica acompanhavam os empurrões leves em Geovana, que escondia o rosto de vergonha. Era isso que Júlia via nas amigas naquela noite, mais uma entre tantas depois de mais de seis anos de amizade. Das histórias com os aparelhos de Geovana aos cabelos coloridos de Thais, que já tinham sido ruivos, pretos, ruivos de novo e depois loiros, as três sempre tinham alguma coisa para lembrar. Júlia, como de costume, também tinha algum caso para contar.
Agora cada uma seguia a vida em um lugar diferente. Geovana estava na faculdade, Júlia trabalhava como auxiliar administrativa em um escritório de contabilidade, e Thais atendia em uma loja de roupas. Naquele feriado, porém, decidiram dormir na casa de Geovana e aproveitar que ela morava perto da praia.
A mãe de Geovana gostava de receber visitas. O irmão mais novo dela, ainda no fundamental, passava a noite no quarto jogando. As três ficaram na sala, assistindo filme, conversando e bebendo com calma. O único inconveniente era que a cama inflável havia furado, mas, entre amigas antigas, sempre se dava um jeito.
Geovana fazia as honras da casa. Era estudiosa, esforçada e tímida, pelo menos até o segundo copo de cerveja, quando começava a falar besteiras e rir de qualquer coisa. Thais adorava provocar, gravar vídeos e mostrar depois, só para aumentar a vergonha da amiga.
Quando Geovana começou a quase dormir de tanto cansaço e bebida, Júlia e Thais a ajudaram a ir para o quarto. A anfitriã não quis ficar no sofá. Preferiu se acomodar no tapete fofo, abraçada a um urso de pelúcia, e dormiu em poucos minutos.
Thais e Júlia dividiram a cama de Geovana e continuaram conversando em voz baixa. Júlia gostava de falar com Thais porque ela perguntava qualquer coisa sem cerimônia e não era tão tímida quanto Geovana. As duas já tinham conversado sobre alienígenas, vida após a morte, relacionamentos e sexo. Como Gegê costumava dizer, elas não tinham vergonha na cara.
A cama era de solteiro, mas as duas cabiam. Ambas eram magras, Thais um pouco mais. Júlia tinha o quadril mais largo, enquanto Thais chamava atenção pelos seios fartos. Ainda estavam levemente alteradas pela bebida, mas conscientes, rindo baixo e mantendo aquele tipo de conversa que só acontece entre amigas íntimas.
Foi Thais quem puxou novamente o assunto de sexo. Em outras ocasiões, já havia comentado que nunca tinha ficado com uma mulher. Júlia também não. Thais pegou o celular, colocou um vídeo de duas mulheres se beijando e começou a comentar as cenas em voz baixa, com aquele jeito debochado que fazia Júlia rir.
Júlia ouviu os sons do vídeo e, sem perceber, mordeu os lábios. Não sabia se Thais notou, mas logo sentiu a mão da amiga pousar em sua coxa. Olhou para ela. Thais não dizia nada. Apenas a encarava, esperando uma reação. Júlia não se afastou. Pelo contrário, respirou fundo e deixou a mão dela subir devagar.
Ainda assim, Thais parou antes de avançar. “Tudo bem?”, perguntou quase sussurrando. Júlia assentiu e respondeu no mesmo tom: “Tudo.” Só então Thais continuou, tocando-a por cima do short fino. Júlia fechou os olhos por alguns segundos, sentindo a provocação crescer. Depois levou a própria mão até Thais e começou a retribuir.
Havia um limite invisível entre elas, uma fronteira feita de anos de amizade, curiosidade e confiança. Por alguns minutos, nenhuma das duas se beijou. Apenas se tocaram com cuidado, como se testassem se aquilo era real. Os suspiros vinham baixos, contidos, e as mãos se moviam com mais segurança conforme percebiam que ambas queriam continuar.
Em determinado momento, Thais ficou acima de Júlia e segurou a lateral do short dela. Olhou mais uma vez, pedindo permissão sem precisar dizer muito. Júlia levantou um pouco o quadril, ajudando-a. A peça saiu junto com a calcinha, e Thais se acomodou entre suas pernas.
O primeiro beijo íntimo foi lento. Júlia levou a mão aos cabelos de Thais e acariciou-os como um cafuné nervoso, misturado ao prazer. Aos poucos, Thais ganhou confiança, alternando beijos, língua e toques delicados. Quando acrescentou os dedos, Júlia prendeu a respiração e apertou de leve os cabelos dela, tentando não fazer barulho.
A intensidade aumentou sem pressa. Júlia se segurava para não gemer alto, lembrando que Geovana dormia no tapete e que a casa estava silenciosa. O corpo, porém, respondia sozinho. Quando o prazer chegou, suas pernas tremeram de leve, e ela levou uma das mãos à boca para abafar o som.
Thais subiu até o rosto de Júlia, ainda sorrindo, e a observou recuperar o fôlego. O beijo que veio depois foi curto, quase tímido, mas suficiente para mudar alguma coisa entre elas. Não era apenas brincadeira. Também não parecia arrependimento. Era uma descoberta compartilhada.
Thais ajudou Júlia a se vestir. Depois foi discretamente ao banheiro. Quando voltou, as duas se acomodaram de novo na cama, agora em silêncio. Ficaram deitadas lado a lado, próximas demais para fingir normalidade, mas confortáveis o bastante para não transformar aquilo em problema.
Na manhã seguinte, acordaram um pouco estranhas. Geovana reclamava da ressaca de sempre e não parecia desconfiar de nada. Durante o café, o clima foi se ajeitando aos poucos. A amizade antiga ajudava tudo a fluir, como se a noite anterior tivesse se encaixado em algum lugar secreto entre elas.
Júlia e Thais não sabiam se aquilo voltaria a acontecer. Talvez sim, talvez não. O que sabiam era que algo havia mudado de forma delicada, sem quebrar o que existia antes. Entre risadas, dúvidas e memórias, entenderam que uma amizade baseada em confiança podia guardar desejos inesperados sem deixar de ser uma amizade para a vida.
