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Grades Nostálgicas

Posted on 3 de fevereiro de 20236 de junho de 2026 By Desejos Intensos Nenhum comentário em Grades Nostálgicas

Compromissos inadiáveis fizeram Helena voltar ao antigo bairro onde morou. Precisava buscar o certificado de conclusão do ensino médio para finalizar a matrícula na universidade. Entrou pelo portão, atravessou os jardins da frente e seguiu até o prédio da secretaria. Já fazia um ano que havia se formado. Naquele intervalo, decidiu fazer mais um ano de cursinho para tentar engenharia.

Havia um ar nostálgico pairando ali. Tinha feito boas amigas, algumas inimigas, alguns amores e algumas paixões. Quando chegou, viu o aviso de que o atendimento começaria mais tarde naquele dia. Tinha esquecido completamente da mudança de horário.

Ainda faltava uma hora para o expediente. Helena se sentou em um banco da parte administrativa e ficou observando os estudantes trocarem de sala no intervalo. O uniforme continuava parecido, e ela sorriu de leve ao reconhecer pequenos detalhes daquele lugar. Ao longe, viu um grupo de garotas conversando e um casal de namorados trocando beijos perto da grade lateral que dava para fora do colégio.

“Aquela grade…”, pensou. A lembrança veio antes que pudesse controlar. Foi ali que uma experiência antiga a marcou. Não no começo do ensino médio, como muita gente poderia imaginar, mas no fim do terceiro ano, já perto da formatura, quando ela tinha 18 anos completos e se sentia pronta para decidir o que queria. Ele também era maior de idade. Aquele detalhe, hoje, parecia importante até para ela mesma, porque a memória carregava desejo, mas também a consciência de que ambos sabiam o que faziam.

A cena havia acontecido em um ponto mais escondido, na pracinha ao lado, onde a grade dava para um terreno vazio na época. Hoje havia um prédio por ali, e a área estava reformada. Mesmo assim, Helena ainda conseguia enxergar a antiga paisagem. Era uma lembrança que a fazia se perguntar “como eu tive coragem?”, ao mesmo tempo em que guardava a sensação de ter aproveitado uma oportunidade que surgiu no momento certo.

Helena nunca foi de se entregar para qualquer um. Tinha seu tipo, seu momento e sua forma de atrair e ser atraída. Naquele fim de terceiro ano, já mais segura do próprio corpo e ansiosa pela liberdade que viria depois da formatura, sentiu que uma troca de olhares com Eduardo vinha crescendo havia semanas. Ele a observava com desejo, e ela gostava de perceber o efeito que causava.

Em uma determinada semana, Helena decidiu arriscar. Pediu a uma amiga que passasse um recado simples: “Estou gostando de você. Que tal uns beijos?” A amiga assinou o nome dela no fim da mensagem. A resposta não demorou: “Me encontra atrás da escola depois da aula”. Era exatamente o que Helena queria.

Esperou a maior parte das pessoas ir embora e seguiu para a antiga pracinha, evitando alguns olhares curiosos pelo caminho. Eduardo já estava lá. Era magro, tinha cabelo preto meio arrepiado, braços longos, um sorriso bonito e um estilo próprio. Talvez ainda fosse desajeitado no corpo, mas havia algo nele que atraía Helena com força.

Assim que ela se aproximou, ele a beijou. Helena sentiu que as semanas de flerte, as mordidas de lábio e os olhares atravessados tinham surtido efeito. Eduardo estava tomado por ela. As mãos dele passeavam por sua nuca, pelas costas e pela cintura, enquanto ela retribuía puxando seus cabelos e trazendo o corpo dele para mais perto.

Ao lembrar, Helena ainda reconhecia a mistura de medo, desejo e entrega que sentiu naquele dia. Era como se o mundo tivesse ficado menor, limitado ao toque dele, ao calor da tarde e ao silêncio daquele canto escondido. Em uma breve pausa, olhou para os lados, sentiu o coração bater mais forte e sussurrou no ouvido dele: “Eu quero você. Mas tem que ser com cuidado”.

Eduardo entendeu. A pressa deu lugar a uma tensão mais lenta, quase elétrica. Ele a beijou outra vez, agora com mais firmeza, e Helena se deixou conduzir por aquela vontade. Havia risco, havia nervosismo, mas havia também consentimento claro entre os dois, uma cumplicidade intensa de quem sabia que aquela lembrança ficaria guardada.

Os dois se deitaram na grama, protegidos pelo canto da pracinha e pela sombra da parede. Helena conduziu parte do ritmo, rindo baixo quando ele se atrapalhava e voltando a beijá-lo para acalmar a ansiedade. Eduardo, aos poucos, perdeu a insegurança e passou a tocá-la com mais confiança, sempre atento às reações dela.

Quando a intimidade entre eles ficou mais intensa, Helena se entregou ao momento sem deixar de escutar o próprio corpo. O desejo cresceu entre beijos, carícias e sussurros contidos. Ela se lembrava da sensação de estar fazendo algo ousado, mas também da certeza de que queria estar ali. Naquele instante, a vergonha parecia distante, vencida pela curiosidade e pela excitação.

Depois, ela se virou e o provocou de novo, deixando Eduardo completamente entregue. Ele sorria entre um suspiro e outro, sem saber se fechava os olhos ou se continuava olhando para ela. Helena gostava daquele poder silencioso, da forma como conseguia despertar nele uma reação tão intensa.

A lembrança seguinte vinha em fragmentos: o corpo dele junto ao seu, a grama marcando suas pernas, os beijos apressados, a mão dele em seus cabelos, a tentativa dos dois de conter qualquer som que chamasse atenção. Quando o prazer chegou, veio misturado ao susto e à satisfação de terem vivido algo que parecia impossível segundos antes.

Eles se recompuseram depressa. Não podiam ficar muito tempo ali. O colégio já havia fechado o portão, e a única saída sem chamar atenção era pular a grade lateral. Eduardo a ajudou a subir. Helena nunca tinha feito aquilo antes, mas conseguiu passar com cuidado. Depois ele pulou também e a ajudou a descer do outro lado.

Andaram até a parada de ônibus abraçados. Ele mantinha a mão em sua cintura, e isso ela lembrava bem. Nos dias seguintes, ainda conversaram bastante, mas a história não teve tempo de se transformar em algo maior. No ano seguinte, os pais de Eduardo se mudaram de cidade, e ele foi junto. Helena nunca mais o viu.

“Eduardo Lafaiete”, disse o nome em voz baixa, sentada no banco do corredor, enquanto ouvia o som das chaves abrindo a porta da secretaria. A lembrança tinha sido tão viva que ela demorou alguns segundos para voltar completamente ao presente.

Quando se levantou, percebeu o quanto aquela memória ainda mexia com ela. Disfarçou, respirou fundo e foi buscar a documentação. Ao sair, passou devagar ao lado da grade que dava para a rua, exatamente no ponto por onde havia pulado tantos anos antes.

“Que loucura”, murmurou, sorrindo sozinha. “Boa lembrança”. Tocou a grade com a ponta dos dedos, como quem fecha um ciclo, e caminhou para longe dali com uma sensação estranha de saudade, desejo e gratidão pela mulher que havia se tornado.

Ficção, Primeiros Contos Tags:desejo, ficção, formatura, heterossexual, lembrança, maioridade, nostalgia, primeiros contos, sedução

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